Letra e Música
Literatura e Música conversam há muito tempo, e nem sempre através de palavras.
As formas de arte não existem isoladamente. Ao contrário, influenciam umas às outras em uma alegre promiscuidade criativa. Nesta relação, a Música tanto fornece inspiração para as outras artes como delas se alimenta, e é com a Literatura que ela possui mais pontos de intersecção.
Letra é Música
As letras das músicas populares, criadas para dialogar rítmica e melodicamente com o arranjo musical, são o exemplo mais óbvio dessa ligação, mas a relação entre as duas formas de arte é mais abrangente e diversificada, já que o texto literário é também música.
Sim, música. A poesia é uma forma de literatura em que o ritmo e a sonoridade (a musicalidade) dos versos, rimados ou não, estão sempre presentes, e mesmo o texto em prosa se beneficia se observar estas características na escolha das palavras e na construção de frases.
Existem ainda outras maneiras de fazer Literatura através das ferramentas utilizadas para criar e estruturar uma obra musical. Um bom exemplo foi descrito pelo modernista brasileiro Mário de Andrade em seu primeiro livro, Pauliceia Desvairada, de 1922. Mário, que além de escritor e poeta, foi um musicólogo dedicado à música popular brasileira, faz muitos paralelos entre as duas artes no “Prefácio Interessantíssimo” do livro, onde explica como inclui em sua poesia características musicais como harmonia e polifonia.
Começa estabelecendo semelhanças entre a melodia poética e a musical:
Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical: arabesco horizontal de vozes (sons) consecutivas, contendo pensamento inteligível.
Em seguida propõe, de forma bastante didática, usar palavras como as notas de um acorde musical:
Ora, se em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais (…) fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para a nossa sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias. Explico melhor: Harmonia: combinação de sons simultâneos. Exemplo: "Arroubos... Lutas... Seta... Cantigas... Povoar!...” Estas palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é frase, período elíptico, reduzido ao mínimo telegráfico. Se pronuncio "Arroubos”, como não faz parte de frase (melodia), a palavra chama a atenção para seu insulamento e fica vibrando, à espera duma frase que lhe faça adquirir significado e QUE NÃO VEM. "Lutas" não dá conclusão alguma a "Arroubos"; e, nas mesmas condições, não fazendo esquecer a primeira palavra, fica vibrando com ela. As outras vozes fazem o mesmo. Assim: em vez de melodia (frase gramatical) temos acorde arpejado, harmonia, — o verso harmônico.
Partindo destes dois conceitos, o autor chega à ideia de polifonia poética:
Mas, se em vez de usar só palavras soltas, uso frases soltas: mesma sensação de superposição, não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia poética. Assim, em Pauliceia Desvairada usam-se o verso melódico: "São Paulo é um palco de bailados russos"; o verso harmônico: "A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas...” e a polifonia poética (um e às vezes dois e mesmo mais versos consecutivos): "A engrenagem trepida... A bruna neva...
Mão Dupla
Assim como o texto literário tem características musicais, a Música tem um caráter narrativo intrínseco, pois, à sua maneira, também conta histórias seguindo um deslocamento temporal.
Isso pode acontecer de forma direta, através de citações explícitas, como em I am the Walrus, dos Beatles, que inclui um trecho de Rei Lear (Shakespeare), em Battle of Evermore e Ramble On, do Led Zeppelin, com passagens de O Senhor dos Anéis (Tolkien), em Amor I love You, de Marisa Monte, com uma parte de O Primo Basílio (Eça de Queirós) recitada por Arnaldo Antunes, ou em Alegre Menina, de Dori Caymmi, feita a partir da epígrafe do quarto capítulo de Gabriela, Cravo e Canela (Jorge Amado).
Outra maneira de usar a Literatura como base de criação é mais subjetiva ou indireta, na qual o texto literário evoca um estado mental e sensorial que dá origem à composição. É este o caso de Caçador de mim, gravada por Milton Nascimento, inspirada em O Apanhador no Campo de Centeio (J. D. Salinger), Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, baseada em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), e Killing an Arab, gravada por The Cure a partir de O Estrangeiro (Albert Camus). Nenhuma dessas canções possui a transcrição de uma linha sequer dos livros que as inspiraram.
Essa forma indireta de interpretar uma obra literária não precisa necessariamente se utilizar de palavras, pois não é apenas para construir versos que a Literatura conversa com a Música. A relação também existe em composições puramente instrumentais.
Música Sem Letra
Criar música a partir de um texto guarda alguma semelhança com as trilhas sonoras de filmes, pois é possível imprimir alguma linearidade que acompanhe a sequência narrativa do livro. Diferentemente dos filmes, porém, cujas sequências de imagens obedecem a um deslocamento temporal real, esta linearidade é mais subjetiva e acontece na cabeça do ouvinte/leitor. Um ótimo exemplo desse tipo de trilha sonora para um livro é o álbum de 1974 Journey to the Centre of the Earth, do tecladista inglês Rick Wakeman, baseado no livro de mesmo nome de Júlio Verne, cujas faixas seguem a ordem das cenas descritas na obra original.
Histórias clássicas de aventura e fantasia, aliás, parecem ter sido feitas na medida para adaptações musicais. A enorme quantidade de músicas dedicadas ao livro O Senhor dos Anéis mostra que as obras de JRR Tolkien estão entre as que mais excitaram a imaginação de compositores, como o sueco Bo Hansson, que além do álbum Music Inspired by Lord of the Rings, lançou trabalhos dedicados a outros livros de fantasia épica. Nada se compara no entanto, ao número de composições inspiradas pelo D. Quixote de Cervantes: O pesquisador Hans Christian Hagedorn encontrou mais de duzentas peças dedicadas ao livro apenas no mundo do jazz.
Uma delas, a Don Quixote feita pelo brasileiro Egberto Gismonti, mostra inclusive que seguir a sequência do livro original não é uma regra. A faixa se refere ao livro que a inspira de maneira mais solta, a partir da impressão causada no compositor pela leitura, uma reação pessoal e com muita brasilidade à obra e seu protagonista, sem qualquer preocupação em retratar a sequência da história.
A abordagem mais subjetiva e desvinculada de ordem narrativa fica mais clara quando a música instrumental é inspirada em poesia, como em King Solomon's Marbles, da banda estadunidense Greateful Dead, baseada no poema Ozymandias, de Peter Shelley, os álbuns Song of Innocence e Songs of Experience, de David Axelrod, ambos dedicados aos poemas de William Blake, ou as músicas do álbum A Grande Boca de Mil Dentes (em fase de produção no momento em que escrevo este artigo) do Máquina Voadora, o duo do qual sou a metade, feitas a partir do já mencionado Pauliceia Desvairada.
Música e Literatura dialogam de diversas formas, usando ou não palavras, uma conversa que vem de longe e não tem prazo para acabar. Este artigo, no entanto, termina por aqui, e a melhor forma de finalizar é com uma playlist só de músicas que nasceram de textos literários:



